A coordenadora do Sonic Paradise, Ana Oliveira, levou o ecossistema da música electrónica da Área Metropolitana de Lisboa (AML) até Viena, onde participou, de 17 a 19 de Setembro de 2026, em dois encontros organizados em parceria e em articulação: a 3.ª Conferência Internacional Groove the City – Move the Streets e o Simpósio Public Spaces, Urban Cultures and Hope.
A conferência foi organizada pela Urban Music Studies Scholars’ Network e acolhida pela mdw – University of Music and Performing Arts Vienna. O simpósio foi organizado pelo grupo temático Public Spaces and Urban Cultures da AESOP e teve lugar no dia 18, na TU Wien. Ao longo de três dias intensos, as duas iniciativas reuniram olhares disciplinares diversos sobre a cultura nos espaços urbanos.
No dia 18, na TU Wien, Ana Oliveira apresentou a comunicação Contested Soundscapes: Electronic Music, Territorial Displacement and Acoustic Politics in Lisbon’s Metropolitan Area, na qual partilhou resultados preliminares do Sonic Paradise. Esta comunicação, assente em entrevistas qualitativas a actores-chave do ecossistema (promotores, DJs, produtores e bookers, agentes, responsáveis por editoras), procurou reflectir sobre como é que as transformações urbanas estão também a moldar os territórios, as infraestruturas e as práticas da música electrónica na AML.
Segundo Ana Oliveira, a análise revela um paradoxo: a centralidade simbólica da cena lisboeta convive com um progressivo deslocamento espacial. Com valores imobiliários comparáveis aos de Londres ou Berlim, mas desajustados do poder de compra local, os espaços têm sido empurrados do centro da cidade para periferias industriais. A este afastamento somam-se políticas restritivas de licenciamento de ruído e processos burocráticos e morosos, que os entrevistados descrevem como barreiras politicamente motivadas, que estigmatizam a música electrónica, perspectivando-a como factor de perturbação em vez de reconhecerem o seu contributo cultural.
A comunicação apontou ainda uma tensão estrutural entre a multiplicação de festivais e grandes eventos, cada vez mais encabeçados por artistas internacionais e inseridos naquilo a que a literatura chama “festivalização da cultura”, e os clubes e espaços culturais que garantem às comunidades um contacto continuado, através de programação regular, apoio ao talento local e criação de um sentimento de pertença. São estes espaços que enfrentam hoje maiores dificuldades de sustentabilidade a longo prazo. Entidades como a AME (Associação de Música Electrónica de Lisboa) e projectos como o Planeta Manas foram apresentados como exemplos de resistência criativa ao deslocamento urbano e às pressões que moldam o ecossistema.
Para Ana Oliveira, estas dinâmicas levantam questões mais amplas de cidadania acústica e de política do som urbano. As comunidades da música electrónica negoceiam o direito à cidade através de práticas sonoras e estratégias espaciais que desafiam processos de gentrificação, que privilegiam o imobiliário turístico em detrimento dos ecossistemas culturais locais. O caso de Lisboa mostra como as paisagens sonoras funcionam como territórios acústicos em disputa, onde convergem pressões económicas, enquadramentos regulatórios e formas de resistência.
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