No dia 9 de Julho, a coordenadora do Sonic Paradise, Ana Oliveira, foi uma das keynote speakers da KISMIF International Conference 2026, no Porto. Com a comunicação Under Pressure. DIY Practices, Structural Precarity, and International Recognition in Lisbon’s Electronic Music Scene, deu a conhecer os resultados preliminares da investigação em curso sobre o ecossistema da música electrónica da Área Metropolitana de Lisboa.
Esses resultados partem de entrevistas a oito actores-chave da cena (DJs, produtores, promotores, gestores de espaços, bookers e activistas culturais), com percursos que vão das origens da cena, no final dos anos 1980 e início da década seguinte, até hoje. Na sua intervenção, Ana Oliveira defendeu que, em Lisboa, o DIY está longe de ser apenas uma opção estética ou subcultural: é uma necessidade estrutural, imposta pela falta de apoio institucional, pela escassez de financiamento público e pela fragilidade da indústria da música. Os exemplos vão dos sistemas de som construídos pela comunidade aos colectivos sem fins lucrativos que trabalham nas periferias, das editoras independentes que prensam vinil reciclado às rádios comunitárias.
Lisboa conquistou um lugar de relevo nos circuitos internacionais da música electrónica, mas essa projecção convive com uma precariedade estrutural profunda. Grande parte dos entrevistados não vive apenas da música electrónica e recorre a rendimentos híbridos e a longos períodos de pluriactividade. A isto juntam-se a crise da habitação e do imobiliário, o licenciamento restritivo, a saturação do mercado e as desigualdades de género que persistem. A gentrificação, sublinhou, está a desgastar as redes culturais, associativas e comunitárias que sempre sustentaram a cena, e coloca em causa a sustentabilidade de todo o ecossistema.
A conclusão, ainda provisória, é de que a cena lisboeta vive numa tensão produtiva entre a profissionalização e a preservação do ethos DIY, uma tensão que ao mesmo tempo a alimenta e a limita.